O Projeto (10)

A Civilização, a Guerra, os Negócios

 

João E. da Silveira

07/08/2017

 

Ao fim e ao cabo, a vontade política saudável tem a ver com a busca de civilização, e essa busca tem a ver com a acumulação de capital. A acumulação de capital, por sua vez, pode acontecer de várias maneiras: pela indústria, pelo roubo, pela conquista etc. Simplificando, a acumulação pode ser benigna ou maligna. A benigna é aquela que vem por meio dos negócios, da indústria, do doce comércio e do conhecimento científico; enquanto a maligna vem por meio da violência, da corrupção, das guerras e resulta muitas vezes na perda ou destruição de capital. A acumulação será tanto melhor quanto mais geral for.

Sobre acumulação maligna, o caso mais exemplar e atual acha-se evidentemente nos EUA, a República Imperial de Raymond Aron, a Freedonia de Rufus T. Fireflys, a América superpotência indispensável de Barack Obama, que Gore Vidal chamou de Estados Unidos da Amnésia. Falando sério chistes à parte, existem mais de 800 bases militares espalhadas pelo Japão e Sudeste Asiático, Ásia central, Oriente Médio e Europa, África e Américas, tudo num cinturão de esforço para abraçar o mundo e ocupar o centro das atenções. Portanto, em matéria de poder e de força não se pode brincar com os Estados Unidos. Não se passa um dia sem que o POTUS (President Of The United States) bombardeie ou sancione economicamente algum país em demonstração continuada de sua força, chame-se o POTUS Bill, George, Barack ou Donald. Eles bradam: “This means war!” Guerras híbridas complicadas.[1] Drones assassinos. Beligerância unipolar, ameaças performáticas a manter povos inteiros com seus nervos à flor da pele, forças proxis cheias de excitamento e prazer mórbido de trucidar adversários em campos de morticínio, gente que se explode. O Global Peace Index informa que neste ano de 2017 nove das dez nações menos pacíficas do mundo foram ou são alvos de intervenção dos Estados Unidos: Afeganistão, Iraque, Síria e Sudão do Sul, por exemplo.

Mas os Estados Unidos da América entendem também da acumulação benigna. Todos os anos, o Banco Mundial avalia as facilidades dos negócios mundo afora. Na avaliação de 2015, os Estados Unidos ficaram em sétimo lugar; não é o primeiro, mas é disparado o maior. A Rússia ficou no 51o e o Brasil na 116a colocação no ranking dos 189 países analisados. A cidade-estado de Cingapura foi novamente a líder pelo décimo ano consecutivo, seguida por Nova Zelândia e Dinamarca. Pelo menos 12 países da América do Sul e Central apareciam à frente do Brasil em 2015: México (38), Chile (48), Peru (50), Colômbia (54), Costa Rica (58), Panamá (69), Guatemala (81), El Salvador (86), Uruguai (92), República Dominicana (93), Paraguai (100) e Honduras (110).

A comparação entre países do quintal, ou seja, entre países ditos latinos das Américas, é o que se faz normalmente cá entre nós. Mais interessante, todavia, é a comparação com os países do grupo BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Nesse grupo o Brasil (116) ficou em penúltimo lugar. Primeiro veio a Rússia (51), depois África do Sul (73), depois China (84). A Índia (130) veio por último. Focados nesse grupo, faremos, certamente, melhores descobertas do que se ficarmos com a turma do quintal americano. A tabela abaixo mostra a evolução da facilidade de negócio nos BRICS, nos Estados Unidos (07) e em Singapura (01), nos oito anos que vão de 2010 a 2017. Nesse indicador, quanto mais fáceis os negócios em um país, mais esse país se aproxima de 100.

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Vê-se nessa tabela dos BRICS que o destaque é da Rússia no que diz respeito a melhoramentos nas condições para os negócios benignos. No levantamento de 2010, ela figurava na 120a posição entre 183 países, com o escore de 54,93. Estava numa condição praticamente idêntica à condição do Brasil com 53,73. Quatro anos depois, na pesquisa de 2014, ela tinha subido para a 62a posição entre 189 países com o escore de 65,34. Em 2017, ela alcançou a 40a posição com o escore de 73,19. Em oito anos, a Rússia subiu 18,26 pontos. No mesmo período, a China subiu 7,76 pontos, a Índia 6.46, o Brasil 2,80 e a África do Sul caiu 2,89 pontos.

 

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[1] . Andrew Koribko, Hybrid Wars : The Indirect Adaptive Approach to Regime Change, Moscow, 2015. (PDF)